quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Milton Santos e a Globalização

Vale a pena pensarmos na globalização por mais um ponto de vista. Milton Santos nesse documentário de Sylvio Tendler

http://www.youtube.com/watch?v=-UUB5DW_mnM&feature=related

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Links


Traço de ilustrador, chargista, cartunista e ilustrador. Mas nada é tão encantador quanto ter na sua lida a transformadora rotina de educador.
Visando receber e compartilhar, deixo aqui sugestões de sites relacionados aos universos que costumam são ótimos portais para arte, educação, história, política e arte.

E claro, meu blog

Muitos faltaram, muitos faltarão, mas o tempo fará com que eu poste outras muitas referências que podem acrescentar cores, sabores, imagens e palavras no ofício de educador.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Aprender a ser


Aprender a ser, para melhor desenvolver a sua personalidade e estar à altura de agir com cada vez maior capacidade de autonomia, de discernimento e de responsabilidade pessoal. Para isso, não negligenciar na educação nenhuma das potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se.
Mais do que nunca a educação parece ter, como papel essencial, conferir a todos seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos do seu próprio destino.
Num mundo em mudança, de que um dos principais motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser dada a importância especial a imaginação e à criatividade.
Convém, pois, oferecer às crianças e aos jovens todas as ocasiões possíveis de descoberta e experimentação - estética, artística, desportiva, científica, cultural e social -, que venham completar a apresentação atraente daquilo que, nestes domínios, foram capazes de criar as gerações que os procederam ou suas contemporâneas.

Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros


Aprender a viver juntos desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências - realizar projetos comuns e preparar-se para gerir conflitos - no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.
Parece, pois, que a educação deve utilizar duas vias complementares. Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao longo de toda vida, a participação em projetos comuns, que parece ser um método eficaz para evitar ou resolver conflitos latentes.

A descoberta do outro

Ensinando, por exemplo, aos jovens a adotar a perspectiva de outros grupos étnicos ou religiosos podem evitar incompreensões geradoras de ódio e violência entre adultos. Assim, o ensino das histórias das religiões ou dos costumes pode servir de referência útil para futuros comportamentos.

Tender para objetivos comuns

A educação formal deve, pois, reservar tempo e ocasiões suficientes em seus programas para iniciar os jovens em projetos de cooperação, logo desde a infância, no campo das atividades desportivas e culturais, evidentemente, mas também estimulando a sua participação em atividades sociais: renovação de bairros, ajuda aos mais desfavorecidos, ações humanitárias, serviços de solidariedade entre gerações
Mais do que nunca a educação parece ter, como papel essencial, conferir a todos seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos e imaginação de que necessitam para desenvolver seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos do seu próprio destino.
Num mundo em mudança, de que um dos principais motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser dada a importância especial a imaginação e à criatividade;
Convém, pois, oferecer às crianças e aos jovens todas as ocasiões possíveis de descoberta e experimentação - estética, artística, desportiva, científica, cultural e social -, que venham completar a apresentação atraente daquilo que, nestes domínios, foram capazes de criar as gerações que os procederam ou suas contemporâneas.

Aprender a fazer


Aprender a conhecer e aprender a fazer são, em larga medida, indissociáveis. Mas a segunda aprendizagem esta mais estreitamente ligada à questão da formação profissional: como ensinar o aluno a pôr em pratica os seus conhecimentos
Aprender a fazer não pode, pois, continuar a ter o significado simples de preparar alguém para uma tarefa uma tarefa material bem determinada, para fazê-lo fabricar no fabrico de alguma coisa.

Nas economias em desenvolvimento, onde a atividade assalariada não é dominante, a natureza do trabalho é muito diferente. Em muitos países da África subsaariana e alguns países da América Latina e da Ásia, efetivamente, só uma pequena parte da população tem emprego e recebe salário, pois a grande maioria participa na economia nacional de subsistência. Não existe, rigorosamente falando, referencial de emprego.
 
A partir disso, aprender a fazer também significa inovar, criando oportunidades nessas economias, muitas vezes subjugadas por interesses de nações desenvolvidas. Aprender a fazer nesses países em desenvolvimento pode significar a subversão, através da inovação e criação, dos e de novos espaços econômicos.

Aprender a conhecer


Meio, porque se pretende que cada um aprenda a compreender o mundo que o rodeia, pelo menos na medida em que isso lhe é necessário
Um espírito verdadeiramente formado, hoje em dia tem necessidade de uma cultura geral vasta e da possibilidade de trabalhar em profundidade determinado número de assuntos. Deve-se, do princípio ao fim do ensino, cultivar simultaneamente, estas duas tendências
Aprender para conhecer supõe, antes de tudo, aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. Desde a infância, sobretudo nas sociedades dominadas pela imagem televisiva, o jovem deve aprender a prestar atenção às coisas e às pessoas. A sucessão muito rápida de informações mediatizadas, o "zapping" tão freqüente, prejudicam de fato o processo de descoberta, que implica duração e aprofundamento de apreensão.
Por outro lado o exercício da memória é um antídoto necessário contra a submersão pelas informações instantâneas difundidas pelos meios de comunicação social, construindo uma memorização associativa em oposição a superficialidade midiática.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Entrevista Jaqueline Beltrame

1) Como começou o teu interesse por arte?

Desde sempre. Meu pai é super culto, gosta muito de música, além de ser muito “ligado” em cinema. Quando disse para ele que faria faculdade no Instituto de Artes, ele achou ótimo, e me disse, inclusive, que sempre achou que eu seria atriz, o que me deixou bastante aliviada, porque embora eu não tenha optado por artes dramáticas, ainda assim minha escolha não causou uma grande surpresa. Por ter tido sempre esse incentivo de família, entrei no Instituto de Artes já conhecendo vários filmes, alguns diretores que eu considerava como sendo uma “verdade universal” eram para meus colegas uma descoberta, foi então que percebi que aquele repertório que eu já possuía não era “natural”.

2) O que tu mais gostavas na faculdade?

Entrei na faculdade com 17 anos, em 1994. Lembro-me de uma aula sobre Hélio Oiticica e Lygia Clark que fiquei em êxtase e ao mesmo tempo “levei um baque”, pois percebi o quanto era ignorante. Nesse mesmo ano, fui pela primeira vez na Bienal, em São Paulo. Essa experiência me deixou bastante confusa e ainda mais instigada a ler e conhecer sobre o assunto. Não estávamos habituados com as “Bienais” aqui em Porto Alegre, nessa época ainda não havia ocorrido esse evento por aqui, só existia o MARGS, a Casa de Cultura e museus tais como o Júlio de Castilhos.

3) Como e Por que tu foste trabalhar com Produção Cultural?

Sempre preferi teoria à prática. Lia bastante. Apesar disso, minha ênfase era pintura, algo prático. Eu me esforçava muito para trabalhar, tive mais de um ateliê. Cheguei a fazer algumas boas obras, mas não tinha vontade de pintar, então acabava fazendo sempre com muita culpa, não era algo natural, soava falso, pois não havia uma grande construção de pensamento em cima daqueles trabalhos. Minha primeira experiência com produção foi através do cinema, pois além de ter um interesse nessa área, o campo das artes visuais na cidade era bem raso. Alguns desses projetos ficaram inacabados, outros nem foram lançados. Além disso, fui mediadora nas duas primeiras Bienais que aconteceram aqui em Porto Alegre. Em uma das aulas da graduação, passou entre os alunos uma ficha em que devíamos colocar nossas áreas de interesse e se já tínhamos alguma experiência nas mesmas. Pouco tempo depois, passamos por uma greve de seis meses na universidade. Durante esse tempo, trabalhei na produção da terceira Bienal do Mercosul, fato que se deve à minha experiência como produtora em alguns curtas cinematográficos relatada na ficha que mencionei.

4) Tu inicias na faculdade com uma impressão e parece que ela vai mudando ao longo da graduação. A Bienal foi um divisor de águas na escolha do teu campo profissional?

Trabalhando na Bienal eu descobri minha profissão. Aprendi que poderia utilizar o meu conhecimento em artes de uma outra forma, que não a prática artística. Eu percebi que no mercado de arte contemporânea era necessário que existissem pessoas que viabilizassem a efetivação dos projetos artísticos. Foi um grande alívio, uma vez que eu não gostava de pintar, mas assim mesmo poderia trabalhar naquele “mundo”.

5) Como uma produtora cultural auxilia na viabilização de projetos artísticos?

Isso varia de trabalho para trabalho. No caso do filme “Cão Sem Dono”, por exemplo, o projeto já veio pronto de São Paulo, idealizado pela produtora paulista Drama Filmes, com os diretores Beto Brant e Renato Ciasca que gostariam de filmá-lo em Porto Alegre. O Produtor Executivo em Porto Alegre foi o Gustavo Spolidoro (diretor de cinema) e eu fiz assistência para ele. Neste caso, a minha função foi muito mais operacionalizar uma idéia que veio de fora a partir dos contatos e dos meios que eu tinha aqui na cidade. Já no Cine Esquema Novo eu estive presente desde o início, desde a idealização do projeto.

6) Como surgiu a idéia de fazer o Cine Esquema Novo?

A idéia inicial partiu do Gustavo Spolidoro. Nós sempre comentávamos sobre o fato de como os festivais de cinema eram “caretas”. O máximo que nós tínhamos era o Festival de Gramado e a gente percebeu que tinha muito filme sendo feito por aí, mas que a maioria das pessoas não tinha acesso.
Então, depois de muitas trocas de e-mails, a gente decidiu se reunir e pensar como seria o festival que gostaríamos de freqüentar, como seriam os critérios de seleção, se iríamos cobrar entrada, como funcionaria a divulgação, se traríamos o pessoal de fora ou não, se exibiríamos em lugares em que não há sala de projeção, como a periferia. Enfim, tivemos de decidir tudo para depois irmos atrás das formas de fazer isso acontecer. Nessa segunda etapa tivemos de aprender como funciona a LIC (Lei de Incentivo a Cultura), como montar um edital de um modo que o projeto se torne atrativo para os investidores, sendo que neste projeto não havia nenhum fim lucrativo, ou seja, tivemos que convencer que o Festival traria um retorno positivo para a sociedade. Foram dois anos trabalhando para que ele acontecesse. O primeiro foi realizado em 2002.

7) Como tu definirias o campo de um produtor cultural em Porto Alegre?

Eu nunca fiquei sem trabalhar. Iniciei na faculdade, quando produzi alguns curtas, logo vieram minhas participações em Bienais, daí não parei mais. O campo artístico funciona muito através de uma rede de relações que nós acabamos criando com os outros profissionais do sistema das artes. Tu fazes um trabalho, depois alguém com quem tu trabalhaste te indica pra algum outro e as coisas vão acontecendo. No ano passado aconteceu algo inusitado, pois eu fiquei por duas semanas sem ser chamada para algum projeto. Por um lado foi bom ter tido esse tempo, pois parei para pensar e percebi que estava um pouco cansada desse ritmo de iniciar um trabalho e logo depois ver ele acabado. Tive vontade então de trabalhar com algo que eu pudesse dar uma continuidade maior, me dedicar por mais tempo. Nessa ocasião fui convidada para trabalhar na Box, que é uma agência pesquisadora de tendências.

8) No que consiste o teu trabalho na Box? É muito diferente do que tu já costumavas fazer?

Na Box sou a Coordenadora de Pesquisas. A empresa tem como foco o comportamento de jovens de 18 a 24 anos porque acredita que é a partir deles que são ditadas as tendências para todas as outras faixas etárias. Em geral trabalhamos com dois tipos de pesquisa: a de tendência, como o comportamento do jovem carioca em relação às mídias digitais, e a pesquisa de consumo, como que modelo de carro da Fiat se enquadra para determinado público. A primeira seria uma pesquisa bem mais ampla, enquanto a segunda, algo bem mais específico. O meu trabalho consiste em organizar essas pesquisas. O target (alvo, objetivo), como chegar nele, não importa onde ele esteja. - aqui, no Rio de Janeiro, no México. Assim como no Cine Esquema Novo, eu tenho que estar “por dentro” de tudo que está acontecendo. O diferencial da Box foi o fato de eu perceber que existe um “mundo” que influencia totalmente no das artes visuais que eu desconhecia, mas que eu deveria conhecer.

9) Pretendes ou sentes a necessidade de voltar a estudar?

Eu gostaria, mas não tenho tempo. Até tentei fazer algumas disciplinas em outras áreas, mas não consegui conciliar os horários do trabalho com o das aulas. Conheço bastante gente da área que fez pós-graduação, mas geralmente essas pessoas dedicam – se mais à academia, gostariam de dar aulas. Apesar de não poder me dedicar a esse estudo mais formal, estou constantemente aprendendo, pois quando não estou trabalhando, continuo ligada à arte, seja conversando com amigos da área, freqüentando o maior número possível de exposições, lendo revistas especializadas, assistindo a filmes. Por causa disso, sou chamada de workaholic pelos meus amigos.

10) De que forma tu sentes que o que tu aprendeste na faculdade é aplicado no teu trabalho?

O fato de as pessoas saberem sobre a minha formação faz com que me perguntem sobre algo que acham que só eu saberei.
Elas sabem que eu tenho um olhar estético mais apurado, uma linguagem diferente. Além disso, o tempo todo no meu trabalho tenho de usar da criatividade para resolver os problemas que aparecem. Isso é o que eu mais adoro!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Entrevista com o Artista: Mauro Fuke


INTRODUÇÃO

Mauro Fuke (Porto Alegre, 1961) vive e trabalha em Eldorado do Sul. Graduado pelo Instituto de Artes da UFRGS. Trabalha principalmente com escultura em madeira. A habilidade técnica sempre caracterizou sua produção. O uso da matemática e de softwares de modelagem tridimensional têm sido importantes na elaboração de suas obras.

Nesta entrevista abordamos principalmente sua relação com o mercado, além de falarmos um pouco sobre seu processo de trabalho.

A ENTREVISTA

P- Como inicia a tua trajetória? Já tinhas um trabalho antes de entrar na Universidade?

Mauro - Eu já tinha um trabalho, só que meu trabalho era ligado ao artesanato, e eu fazia aquilo pra ganhar dinheiro mesmo, pra mim aquilo que eu fazia com madeira, que eram caixinhas, porta-jóias, eram artesanato, não era arte, era um outro campo, e aquilo que eu ia começar a fazer no Instituto de Artes aí sim seria um negócio chamado arte. Só que quando tu entra (...) acabei mostrando e vendendo para alguns professores, daí a professora Romanita, acho que foi uma das primeiras, a professora Rose também, disseram: “e quem sabe tu começas a trabalhar isso” e eu “a é”, aí caiu uma ficha. Aí eu comecei a trabalhar e em seguida comecei a entrar em salões, ganhei alguns prêmios e já fui expondo, então um pouco da minha carreira, vi que era um pouco diferente da maioria dos colegas, também por outro lado naquele período dos anos 80 era muito mais fácil inserir-se no mercado, do que hoje, acho que o mercado estava bem aberto pra nossa geração.

P - Em que momento você teve consciência de que era um artista? O que é ser um artista?

Mauro - Isso é bem pessoal, no meu caso, eu saí de dois vestibulares da Engenharia Elétrica era mais ou menos como eu tinha encaminhado a minha vida, com 17/18 anos eu tinha feito curso técnico de eletrotécnica no Parobé e tudo se encaminhava para eu virar um Engenheiro elétrico ou engenheiro alguma coisa. Fiz dois vestibulares e não passei, mas naquele período eu tinha umas amizades com músicos, e um dia passando na Sr. Dos Passos, um amigo músico disse “ah, é aqui que o pessoal vem tocar e aprender a fazer Arte”, então eu fiz vestibular e entrei, e foi acontecendo.

P - Sobre as primeiras exposições, você foi convidado? Como funcionou isso?

Mauro - O mercado tava propício, teve alguns salões, eu ganhei alguns prêmios, teve um salão que na época era bem importante, pegava toda a região sul, ela fez uma edição aqui em Porto Alegre, ganhei esse prêmio. E na época esse tipo de trabalho como o meu, que tinha essa coisa artesanal, mais apurada, esse acabamento e tal, chamou a atenção das pessoas e ganhei o prêmio, e uma galeria que na época era a mais ativa que era a Tina Presser me convidou, não me lembro direito como isso funcionou, sei que coloquei meus trabalhos lá e vendeu, vendia, vendia, até foi uma coisa assustadora, porque eu não esperava esse tipo de coisa, ninguém esperava. E no Instituto de Artes naquela época ainda tinha uma coisa assim, uma cultura de que ganhar dinheiro com arte não era uma coisa muito nobre, uma coisa assim, tipo se vender ao sistema, ainda tinha um pouco desses ranços da época da ditadura. E também teve uma geração muito grande que ficou a parte (...) não sei se muito por vontade própria ou porque o mercado não era muito ativo, não era muito dinâmico, e coincidiu que naquela época o mercado se abriu, e eu comecei a expor, o pessoal estava afim e eu vendia, então foi por aí que começou. Agora, como exatamente, acho que foi muito por esses salões, chamei atenção, e a atenção da imprensa, das várias galerias que tinha na época, era estudante, entrei em 1980( IA) e em 1983 eu estava expondo numa galeria. Eu não tinha estrutura pra esse tipo de coisa, aliás ninguém tinha na época eu acho, é uma coisa que mexeu muito comigo, porque eu tinha fila de compradores, uma coisa maluca, tu recém está lá estudando, teus colegas, teus professores e de repente está vendendo, e tem fila de gente pra comprar, e teu nome saiu no jornal, essas coisas malucas.

P - Você teve algum mestre ou orientador que te ajudou nessa época?

Mauro - Teve algumas pessoas que me abriram os olhos, como a Romanita na época, a Rose, mas fora isso, meio que foi por mim, porque não tinham outros artistas ou professores naquela época atuando no mercado, essa relação do artista e o mercado estava começando a se montar naquele período, porque até então acho que o mercado vinha em função dessas figuras mais conhecidas, esse interesse pelos artistas jovens apareceu naquele período.

P - Em relação ao subsídio do teu trabalho, teve um investimento inicial pessoal, e hoje com o reconhecimento isso mudou? Como, hoje você se sustenta no mercado? Com o seu trabalho ou sempre tem um investimento financeiro pessoal?

Mauro - Pra mim a atividade em Artes Plásticas nunca foi pensada no sentido de ser amador e não ganhar dinheiro, sempre tinha que ganhar dinheiro, isso que me permitia manter o ateliê, comprar material. Na minha cabeça nunca houve essa possibilidade de que a Arte seria uma coisa não profissional, sempre teve ligada a ganhar dinheiro, assim como seria inviável fazer o trabalho e não vender, então o meu trabalho sempre foi direcionado pra eu fazer o trabalho e poder vender pra conseguir continuar trabalhando, porque seria impraticável. Sempre teve essa coisa bem pragmática, fazer/vender pra poder continuar trabalhando Isso é o ideal, mas têm períodos em que você vende mais outros que vende menos.

P - A preocupação em vender influenciava você na hora da criação?

Mauro - Pensava, claro. Isso que é maluco, quando você é muito jovem, quando eu comecei com 20 anos, isso mexe muito com você, você não tem aula disso na faculdade, como dar entrevista; como te vestir; como falar com um cara; como você se apresenta para um curador; essas coisas todas você tem que aprender na marra.

P - Você começou cedo já tendo contato com galeristas, curadores e já sendo chamado. E hoje como funciona essa relação com os mesmos?

Mauro - Acho que hoje o mercado está bem mais difícil do que quando eu comecei, eu fico pensando, eu gostaria de repensar minhas relações com galerias, porque chegou uma hora do jeito que estava andando os meus contatos, o jeito que eu estava me relacionando, não estava me satisfazendo muito, então eu meio que parei um pouco de trabalhar com galerias, não que eu tenha parado realmente, as minhas vendas não estão mais acontecido nas galerias, eu tenho vendido direto. É uma coisa que eu tenho que pensar ainda nessa relação com galerias; o jeito que estava andando não era satisfatório pra mim, é uma coisa que está em aberto, a relação com as galerias não tava boa...

- Como foi o trabalho com galerias do Rio Grande do Sul e no resto do Brasil?

Mauro - Eu trabalhei com galerias de fora, porque aqui na verdade, dá pra se ver que tem uma galeria que é a Bolsa de Arte trabalhei com ela 10/12 anos. Teve um período muito bom e depois um período ruim.

- Essa relação com galerias é igual lá fora como aqui?

Mauro - Não, muda bastante. Quando eu comecei a porcentagem do marchand ou da galeria era 33%, era um 1/3 do valor bruto do trabalho. Hoje em dia ninguém mais trabalha com esse valor, trabalham com 50%, mas depende, tem galerias que desses 50% está incluso o auxílio de custo da produção da exposição. Outra galeria, eles vão comprando seu trabalho antes pra manter você durante o período da exposição; algumas assinam contrato, outras não; outras são contrato verbal, depende da galeria.

P - Você utiliza muitas ferramentas de computador para criar e para mostrar o seu trabalho. Teu blog tem sites informativos, blogs, myspace, links, etc... Explique um pouco essa relação com a tecnologia informatizada. Como isso influência o seu trabalho.

Mauro - Computador foi uma coisa que eu me apaixonei, por volta de 1992 eu comprei um computador, mais ou menos uns 2 anos eu só queria saber de computador, quase não trabalhava. Os meus projetos todos praticamente têm que ter computador, se não tem computador eu não trabalho, a parte de projeto; hoje em dia para a parte de pesquisa também é super importante. Eu tive um site um por um longo tempo, mas o site ficava hospedado nos Estados Unidos, que eu nem conseguia falar direito com o “cara”. Então abri o blog. Eu acho que todo mundo tem que ter seu blog, seu site, ou uma coisa desse tipo. É um lugar em que eu faço meus contatos e até vendas pra pessoas que querem comprar e também ando postado o que eu venho fazendo no ateliê, o que eu ando pensando ou o que eu ando pesquisando, ta mais ou menos tudo postado ali no blog. O ideal agora seria eu dispensar a galeria e fazer minhas coisa todas pela internet. Meu blog eu terminei de montar acho que foi no inicio do ano, fiquei uns 2 ou 3 meses trabalhando nele, terminei de montar por janeiro. Eu gostaria de, estava imaginando, manter esse contato pela minha fruição pelo blog, isso meio que começou a andar. Essa interação com a internet acho que a gente tem que ter, não dá pra não ter. Eu vi por exemplo que no Royal College, uma universidade de arte em Londres, os alunos saem com um site locado, com a profissão, com o trabalho de formatura, trabalho de graduação. Já tá tudo montado e postado. Acho que é uma coisa imprescindível, tem o meio, você tem quer ter um blog, um site ou alguma coisa assim, pra você estar apresentando o teu trabalho, pra ficar de fácil acesso. Assim como eu tenho o blog, lá tem todos os meus trabalhos, se alguém pede uma foto ta tudo ali o meu currículo também. E eu tenho acesso a isso em qualquer lugar, se eu for pra São Paulo não preciso levar disquete ou CD. Tá tudo postado ali.

P - Como você vê o mercado gaúcho no que diz respeito a novos artistas? E em relação ao Brasil?

Mauro - Acho que o mercado de Porto Alegre tem espaço pra mais pessoas trabalharem nesse mercado, eu já venho pensando nisso a algum tempo. Acho que não é por falta de dinheiro no circuito de Arte no Estado, mas por falta de mais agentes trabalhando nesse circuito, eu acho que tem um potencial que não é explorado, por exemplo acho que tem espaço pra mais 1 ou 2 galerias, não sei, eu acho. Mas por outro lado também tem uma deficiência na formação de público, da cultura do público de querer ir numa galeria; gastar dinheiro e comprar um obra de arte, mas por outro lado as galerias também não facilitam muito, porque elas trabalham com portas fechadas, sei lá, ter que marcar hora, aí fica mais chato. Mas não é por falta de dinheiro, falta é fazer esse mecanismo andar um pouco mais. Esses jovens empresários, os jovens profissionais liberais, ao invés de comprar um pôster na wallstreet, comprar uma obra de arte. Umas coisas como a Bienal do Mercosul vão ajudando a formar público.

P - E a Bienal B, o que tu achas?

Mauro - Sabe que eu não vi... Eu não tenho acompanhado esse negócio de artes plásticas porque não é uma coisa que tenha me estimulado a trabalhar, eu tenho estímulos mais interessantes para o meu trabalho ou pra minha cultura em áreas como design, matemática, arquitetura já faz algum tempo. Artes Plásticas realmente não é das coisas que mais me estimulem a pensar ou que me interesse olhar e pesquisar. Tenho achado mais estimulante essas outras áreas, design principalmente.

P - Tu iniciou com trabalho artesanal e entrou pra academia. Chegou a existir ruptura entre o teu trabalho artesanal e o teu trabalho artístico? O artesenal ainda influencia o teu trabalho?

Mauro - No inicio quando eu estava trabalhando pra mim era uma fonte de prazer descobrir as minhas capacidades e do material, em relação a madeira, que é o meu material principal. Era uma coisa de descoberta do meu potencial e também da madeira, eu ficava às vezes me seduzindo, “olha isso eu consigo fazer” ficava desafiando, compondo coisas mais elaboradas e mais complicadas. Era uma coisa de descoberta com o material, eu tinha uma relação muito intensa, mas chega um tempo que só essa relação começa a ficar repetitiva e leva você a pesquisar e querer introduzir certos conceitos ao teu trabalho, te armar com coisas da história da arte, com artistas que te interessam, ver o que esses “caras” estão pensando, que linha estão seguindo... Então essa parte do artesanato, foi importante mas não é mais por aquilo, aquilo tu já conquistou...

P - Na universidade tu não chegou trabalhar com madeira?

Mauro - Dentro da universidade você não chegou a trabalhar com madeira?

Não, toda a parte técnica do meu trabalho vem do artesanato. Na época acho que nem tinha curso, aliás, eu nem fiz escultura eu fiz desenho, bacharelado em desenho. Então a

minha parte técnica não é do Instituto de Artes.

P - Essa tua parte artística já vem do artesanal.

Não da pra separar muito, essa parte técnica foi meio autodidata, mas a parte de História da Arte, de conceitos, foi importante ter entrado no Instituto de Arte, trocar idéias com os colegas.

P -Como tu chegaste no artesanato?

Isso foi de família, porque minha mãe até hoje dá cursos, trabalhos manuais, crochet, madeira, metal e outras coisas. Eu sempre ajudava minha mãe em casa, desde pequeno até porque eu vendia as “coisas”. Chegou uma hora em que eu comecei a fazer certas coisas, bolsas e artesanato mesmo. Então eu tinha essa coisa das ferramentas em casa e chegou uma hora que eu comecei a fazer minhas próprias coisas, comecei a vender. O inicio da técnica foi com minha mãe e meu pai que mexia às vezes com madeira, marcenaria. Depois você vai indo começa a estudar, estudar e a buscar suas fontes, pesquisar. Hoje em dia eu digo que a parte técnica, de como fazer as coisas, já não é tão importante, porque eu meio que já sei fazer tudo digamos. Eu sei até onde a madeira pode ir, eu sei o tamanho que as peças podem ter, coisas que não são mais preocupantes pra mim, já são 20 anos, não precisa se pensar muito mais nisso. É mais a forma.

P - Tem uma frase em destaque no teu blog: “You must create your underground because now there's no more underground, no more avant-garde, no more marginality. You can create your personal underground, your own black hole, your own singularity" do Jean Baudrillard (Difference and Singularity). Pode comentar ela um pouco?

Mauro - Isso é uma coisa que eu já tinha pensado um tempo, e um dia eu estava num blog que eu assino e tinha essa frase ali. É porque você não tem mais uma coisa absoluta, valores absolutos, ainda mais com a internet, que eu acho que deixa tudo muito igual, não tem um valor que desponte mais, como tinha a alguns anos atrás, tinha o capitalismo, o comunismo, etc. Tinham coisas pra você ir contra ou à favor, existiam valores mais visíveis, e hoje em dia está tudo muito plano. Então você não sabe mais qual caminho é o certo ou o errado, essas coisas não existem mais. Tem que se guiar por tua conta, pelos teus valores, as tuas coisas. É muito olhar pra ti a tua relação com o mundo e daí tirar alguma coisa disso, não tem uma coisa que tu diz: “ah isso é um exemplo a ser seguido, ou algo a ir contra”, não tem mais muito isso. Cada um faz a sua história, cada um olha pra si e dá uma resposta aos estímulos do mundo. Não dá mais pra ir pelos outros. Foi isso que eu tirei dessa frase.

P - O fato de você ter descendência japonesa o influência de alguma maneira?

Mauro - Nunca busquei nada objetivamente em relação a minha origem no Japonesa. Não interessa, mas não é nada em especial que eu vá buscar ou que eu vá querer mostrar isso no meu trabalho. Mas também é uma coisa que não dá pra fugir, porque está na minha cara (risos). Tenho conhecidos na colônia Japonesa e as vezes eu participo. A exposição do MARGS pegou uma obra minha do acervo.

P - E os trabalhos públicos?

Mauro - Também por causa dos concursos que eu entrei. Teve aquele do viaduto que foi o primeiro e agora tá desmanchado... depois teve o aeroporto, teve a faculdade, depois o hospital... Não tinha gente fazendo isso. Eu desenvolvi uma técnica de pastilhas, de fazer no computador. Eu tinha uma idéia na cabeça, peguei um dinheiro e com o pessoal de informática da Ufrgs montei um programa meio “Frankenstein” pra fazer aquele painel de pastilhas do aeroporto e depois usei em outros painéis. Fiz vários painéis por aí, e no interior também... Tem uma cidade aí que deve ter uns cinco painéis meus (risos). Foi um jeito de ocupar um espaço que tinha...

P - Tem também os da Bienal...

Mauro - É. Esses foram por convite da curadoria (A Escada e A Paisagem – 2ª e 5ª Bienal do Mercosul, em 1999 e 2005, respectivamente).

P - Para a escada tu usaste o conceito da não autoria, dos minimalistas. Foi criado um módulo e deixou o programa desenvolver o projeto...

Mauro - Nessa época eu estava muito interessado nos minimalistas americanos. Eu tinha lido também nesse período a Rosalyn Deutsche logo que a biblioteca trouxe os livros eu li todos os livros dela, eram dois, (risos) então fiquei muito interessado na parte que falava do minimalismo americano, que era muito diferente do que eu tava fazendo, mas me interessou demais e um dos frutos desse meu interesse é A Escada da Bienal. E é aquilo. A autoria não é minha eu fiz um programa de computador...

P - E os fractais?

Mauro - Eu já tive esse interesse, fiz até uns trabalhos, posso até mostrar depois. Tem a ver com meu interesse por matemática, na teoria do caos, teoria da complexidade... É como eu disse meu interesse não vem das artes plásticas, vem de outras coisas, que não tem a ver com a história da arte ou com a produção artística dos meus colegas. Não me interessa muito ir a exposições, vou por causa dos amigos... Tem um colega que diz que não se interessava pela produção artística dos outros e raramente pela dele também (risos).

P - A tua obra tem um comportamento diferente do previsto no programa de computador. Recebe a ação da força da gravidade, da manipulação... (neste momento ele nos convida para subir no escritório do atelier e mostrar algumas peças) Nas exposições os teus trabalhos ficam à disposição para o público manipular? E é tu que fazes tudo sozinho ou alguém te ajuda na produção?

Mauro – Sim o público normalmente pode mexer... e é eu que corto, lixo, tudo... já tive ajudantes mas eles cansaram (risos) (ele nos mostra A Arvore – Flat Tree 2 – de 2006) Esse é um trabalho baseado nos fractais... no computador ele é todo durinho, todo montado e quando tu faz ele e põe numa mesa ele desaba, desmaia. Ele tem que ser manipulado mesmo. No meu processo de trabalho eu faço um rascunho no papel e vou montando no Auto Cad e depois no 3D Ma. Meu erro é quase zero, eu só vou perceber algum erro na execução lá embaixo... mas eu já fiz projetos muito mais elaborados, mais precisos. Hoje é como se eu fizesse um esboço do que eu vou fazer depois na madeira. Tem coisas que eu só percebo quando eu to fazendo. Alguns trabalhos anteriores não tinham erro. Era igual como no computador. Agora já tem uma margem, não sou tão minucioso, eu vou lá, faço um pouco, volto aqui mudo. Agora parei com os fractais, tô com coisas mais individuais.

P - Já aconteceu de um trabalho ficar diferente do que tu projetaste?

Mauro - Antes do computador eu trabalhava com papel milimetrado. Nunca aconteceu de ficar tão diferente do projeto. Nunca aconteceu de dar uma reviravolta, até porque como o meu trabalho demanda muito tempo eu não posso ficar errando muito. Na pintura se tu errar começa de novo. Aqui se eu perder uma peça perco três dias, uma semana de trabalho. O projeto me ajuda a errar menos.

P - Tu trabalhas por encomenda?

Mauro - Trabalho. Como o do aeroporto, por exemplo, tinha um tema, era um painel ligado à cultura, à paisagem, à economia gaúcha. E às vezes me encomendam cadeiras, mesas, uma escultura de parede... eu apresento duas ou três propostas, o custo é tanto...

(depois entramos em divagações sobre corte laser, e outras técnicas. Encerramos a entrevista pois ele tinha um compromisso.)

CONCLUSÃO

Neste trabalho, apesar de focarmos no artista Mauro Fuke, tivemos contato também com os Artistas Lia Menna Barreto e Rodrigo Nunes. Vemos que cada qual tem uma visão bem pessoal sobre o sistema das artes e o mercado. Existem obviamente algumas convergências quanto a alguns temas, como por exemplo, a força dos anos 80. Vemos que hoje o mercado é movido por grandes eventos, sejam eles de coletividade ou da iniciativa privada. Eventos menores não têm a mesma projeção. Existe uma liberdade muito grande e os temas hoje são plurais. A mídia torna-se um dos fatores de grande importância apesar de não focar na arte e sim na notícia, um pouco diferente de outras épocas. Há espaço, mas poucas iniciativas. O surgimento de novos artistas depende de fatores inerentes à sua capacidade de articulação nesse mercado. Mostrar-se, acreditar em seu trabalho, cercar-se de informação, utilizar as ferramentas que se tem à disposição, são aspectos imprescindíveis nos dias de hoje. Não é muito estimulante verificar que, em alguns momentos das entrevistas, constatamos certo pragmatismo em relação ao sucesso na carreira artística, sua inserção, suas dificuldades. No entanto são firmes e resignados quanto às suas escolhas artísticas o que nos deve servir de exemplo no sentido de perseverar, procurar ter um bom trabalho, uma rede de relacionamentos importante e uma auto-estima, pelo menos, controlada. Importante saber que, em suas opiniões, Porto Alegre não está na contra-mão da história e, apesar das questões práticas e comerciais menos favoráveis em relação a outros pólos de produção artística, tem e sempre terá condições de absorver e expandir o trabalho de seus realizadores, desde que encarado com profissionalismo e seriedade.

APENDICES

Entrevista com LIA MENNA BARRETO

Lia Menna Barreto, formou-se em 1985, pelo Instituto de Artes da UFRGS, tornando-se Bacharel em Desenho. A matéria prima utilizada pela artista são simulacros de flores, bebês e animais de plático, vendidos como brinquedos ou enfeites. Atua sobre estes materiais, desestruturando, multiplicando ou forçando seu convívio com seres vivos como plantas, fontes energéticas ou tecidos naturais como a seda, o linho e o algodão.

A ENTREVISTA

P - O mercado e o artista. Como anda o mercado no teu modo de ver, como funcionou pra ti e como tu vês hoje o mercado de trabalho?

Lia - Pra mim sempre foi uma coisa muito instável, muito confusa, difícil. Nos primeiros dez anos eu fiquei só pesquisando e eu não ganhava um tostão. Eu só consegui trabalhar com galeria quando eu fui pra São Paulo. Ali as galerias conseguiam vender alguma coisa, mas foi sempre uma coisa muito maluca. Até hoje é instável. Não dá! Ainda mais aqui no Brasil e ainda Mais aqui em Porto Alegre. O que rola mais é fora do estado mesmo. Aqui o mercado acontece quando tem uma mídia, quando tu tem uma grande exposição (aparecer na mídia). O período que eu mais tive retorno de mercado foi quando eu participei da Bienal e quando eu fiz uma exposição numa galeria. Tinha a mídia por traz. Naquele período eu ganhei dinheiro. Morando aqui fica difícil manter uma coisa mais contínua. Eu e o Mauro revezamos. Às vezes um tá melhor no mercado, depois o outro... É uma coisa um pouco romântica, pelo menos pra mim. Eu posso dizer que eu sou uma artista romântica porque eu não tenho essa produção muito certinha. É lindo pra quem vê...

P - E tu teve o momento em que pensou em fazer algo para obter um retorno financeiro ou isso nunca influenciou no teu trabalho?

Lia - Eu acho que eu sou bem romântica mesmo... eu nunca fiz esse trabalho pra vender. Eu fiz venderam alguns, outros não... eu nunca tive esse tipo de tino comercial. Acabei vendendo algumas coisas mais porque tava dentro da minha pesquisa, mas eu nunca desviei do assunto.

P - Como foi a tua inserção no sistema de arte?

Lia - Foi bem arrastado. Bem, quando tu és jovem tu tens uma energia que hoje eu não tenho mais. Hoje não é bom nem ruim, é diferente. Eu lembro de inscrever meu trabalho em muitos salões e receber muitos nãos, e de vez em quando um sim. E tem que ter muita persistência, aquela coisa do artista que acredita no seu trabalho, que tem aquela energia jovem, vamos lá, e dane-se! É uma coisa do artista jovem que tem que ter uma energia que depois vai sendo substituída por outra. Não que vá ficando menos ou pior, mas eu lembro que eu tinha muita energia. Jorrava trabalho. Mas agora eu nem quero que jorre, porque eu não tenho interesse também, a coisa tá mais canalizada, eu paro mais. Agora a coisa ta mais equilibrada, artista maduro... (risos)

P - E quem começa maduro?

Lia - Vai acabar fincando jovem (risos) deve ser esse o movimento! Mas eu falo de uma energia de início, não é nem de idade. Quando tu começa a criar tu descobre que tem um monte coisas pra desenvolver. Tu fica muito animado, eufórico. É muito lindo mas eu não queria voltar lá, porque é uma confusão também... depois tu te dá conta de muitas coisas que tu não te dá no início. Como eu disse, não é melhor nem pior, é só uma mudança de estado.

P - Como o mercado vê a essa pesquisa de material mais alternativa? Como as pessoas que compram vem o teu trabalho?

Lia - Não se importam tanto com o material... dependendo da pessoa que compra ela não vê a coisa do material em si, ela vê a tua trajetória, que pra chegar naquele resultado tu demorou, que aquilo é uma idéia bem maior do que o material, depende da sensibilidade da pessoa que vai adquirir, que vai conviver com o trabalho. Tem pessoas que compram meu trabalho, tem ele em casa e não estão ligando pro material e si. Estão mais interessados na energia do artista mesmo. Mas depende, tem milhões de pessoas consumindo no mundo, tem gente que vende só uma idéia, não vende nem a matéria...

Nunca gostei de material nobre, muito rico. Sempre gostei do falso. O pelo falso, a lagartixa falsa. Tudo que é de mentira, que é brincadeira, o lúdico, são coisas que me encantam, me interessam muito. A coisa do faz de conta. Acabei ficando no lúdico até mesmo por simular, por não ser o verdadeiro. É um mundo infantil! Quando eu vi eu estava lá. Os primeiro trabalhos (os nadinhas) eu fiz imitando o Mauro. Só que ele usava o pêlo natural, a madeira, fazia uns objetos e eu pegava umas peles falsas e costurava. Era o nobre e o super “baga”. Era a imitação do chique (risos) Então ficou já aquela brincadeira e eu comecei a sacar qual era o rolo...

Entrevista com RODRIGO NUÑES

Rodrigo Nunes, também formado pelo Instituto de Artes da UFRGS, em cerâmica, tem trabalhos em sua área, mas também em pintura, desenho e fotografia. È professor da UFRGS e desenvolve sua carreira acadêmica paralelamente à sua carreira artítica.

TÓPICOS DA ENTREVISTA

- Cada cadeira era uma exposição em potencial.

- A infraestrutura está muito melhor hoje. Hoje tem espaço mas não tem visibilidade.

- O bom das fundações é o poder da minha que ela tem por trás.

- Hoje os catálogos são muito melhores

- As iniciativas como a Bienal B ou o Plano B são características em Porto Alegre. O que falta às vezes é memória. É manter o que já se conquistou.

- A mídia não esta interessada na arte, mas sim na capacidade de notícia.

- Hoje tá mais complicado tu aparecer. Antigamente tinha uma mídia mais especializada.

- Nós não somos a Bienal do Mercosul.

- Eu não sou nem consagrado nem desconhecido, estou no limbo. A produção e as relações andam juntas.

- O registro é muito importante. É ele que vai ficar pra história. O que sobra de uma Exposição?

- Ir atrás. Eu consegui muita divulgação tendo uma boa idéia e uma boa execução da idéia.

- O artista não é feito para conviver em coletivo... A união é importante para produzir e executar um projeto.

- O coletivo, o evento realizado pelo artista é importante e deve acontecer.

Entrevista Professora de Arte: Karen Hoffmann

1. O quê é arte?
KH: Em primeiro lugar: Liberdade de expressão. Poder criar sem limites.

2. Como se relaciona o artista com o circuito das artes?
KH: Hoje, existe uma grande liberdade de expressão por onde o artista pode se aventurar, não há regra. Porém, ao mesmo tempo o mercado não parece proporcionar tanta liberdade. Parece haver, um critério onde métodos mais tradicionais, como por exemplo, a pintura com o suporte tradicional, não parece mais ser tão aceitos. A Arte é livre, ao mesmo tempo não é tão livre. Parece haver uma moda e os artistas parecem ter que seguir essa moda. Hoje em dia a arte está relacionada com a idéia de comunicar alguma coisa, alguma denúncia sobre questões sociais, ecológicas, uma idéia para chocar as pessoas, chamar atenção...

3. Opinião, sentimentos em relação aos acontecimentos nos circuitos da arte atualmente?
KH: Acho tudo muito interessante em termos de conhecimento, interajo com tudo isso, vou aos museus Bienais... mas preocupo-me com a legitimidade da Arte hoje em dia,. Não sei se existem ainda, artistas, dentro de um conceito de aptidão da Arte. Tem pessoas que fazem Arte, mas não sei se são artistas. Parece que hoje em dia todo mundo é capaz de colocar uma obra em uma Bienal. Pode até ser polêmico é uma opinião. Essa linguagem parece desgastada, talvez seja preciso algo novo, ou até mesmo, algo que resgate, por que não dizer, o passado. Algo para nos apaixonar-mos. Para sentirmos emoções, paixões.

4. Como foi tratada a estética na academia?

KH: Não foi falado, inclusive na graduação, comecei a fazer meu projeto de graduação com uma preocupação bem estética e isso foi muito criticado. A partir disso tive que deixar de lado essa questão.

5. Dificuldades no projeto de graduação?
KH: Desde o início da faculdade, eu vinha seguindo uma linha, trabalhando com a figura humana. Assim, minha idéia era trabalhar com citações. -Citações em Arte é quando nos apropriamos de imagens da história da arte, da história mesmo. Como figuras medievais, símbolos, ícones. Como eu colocava isso na minha pintura isso foi visto como muito narrativo, retrógrado. Assim acabei partindo para uma coisa bem contemporânea, e trabalhando com digitais, marcas do corpo. Uma forma de representação contemporânea.

5. Para obtermos o diploma de artistas, pela academia, é necessário nos encaixarmos no conceito de artista contemporâneo?
KH: Parece que sim, foi o quê aconteceu comigo. Por isso, parece que apesar de todo discurso de liberdade da arte contemporânea, ela não parece ser proporcionar tanta liberdade assim, pelo menos em relação aquilo que é aceito no circuito das Artes.

6. Conhecendo questões específicas da Arte Contemporânea, como essa tão falada liberdade de expressão, como podemos pensar a prova de habilitação específica para ingresso no Instituto de Artes da UFRGS para as artes visuais, através do desempenho do desenho?
KH: Parece contraditório, já que a academia quer que seu aluno saia de lá apto para ser um artista contemporâneo. Claro que compreendo que a academia acredite que o artista deva ter uma aptidão para o desenho em sua trajetória, para que depois, possa “enlouquecer”.

7. Na tua opinião, essa prova de desenho é fundamentaL?
KH: Acredito que não, pois a seleção natural ocorre lá dentro do curso, durante a formação.

8. Qual a importância do desenho para o artista?
KH: Acho fundamental para o artista ter no início de sua trajetória, um trabalho com desenho, com escultura, acho que ele tem que ter a noção de desenho, de volume, de modelagem. O desenho é um esquema e acho que toda pessoa tem capacidade para aprender.

9. Como professora, qual a importância do desenho?
KH: O desenho trabalha questões de percepção, observação, olhar. O desenho de observação transforma o olhar da pessoa em um olhar mais sensível.

10. As crianças realizam desenho de observação?
KH: Sim, principalmente de auto-retrato.

11.Qual a reação deles?
KH: A maioria das crianças gosta muito. A primeira reação deles é de estranhamento, até repúdio, porque são muito exigentes, mas a maioria fica se olhando no espelho por um longo tempo, tentando observar todos os detalhes e desenhando. Outros porém, pedem se podem abstrair, temendo que seu desenho não fique ao agrado. Alguns se aborrecem, achando ruim mas oriento que é um retrato, não uma fotografia, não precisa ser realista, então tudo fica mais fácil. Afinal é um desenho. E o desenho oferece liberdade e favorece a criação. Também o relacionamento, a conversa entre eles, opinião, crítica. É um trabalho muito interessante.

12.Qual a importância do professor de Arte?
KH: A Arte é fundamental! Ela faz o aluno olhar, pensar, interpretar, comunicar. O ensino de Arte, hoje em dia se transformou daquele papel de arte manual, artesanato para uma disciplina de formação de cultura, formação de olhar crítico sobre as coisas...

13. Atividades mais realizadas
?
KH: As atividades básicas são: Desenho, pintura e modelagem, também recorte e colagem. Apartir disso, trabalhamos a história da arte, os artistas, imagens para conhecer, interpretar. Eles adoram. Gostam muito de história da arte. Sempre relacionam com coisas do seu dia-a-dia. Fazem releituras e tem muita receptividade.

14..Eles podem fazer sugestões?
KH: Claro, gostam de decidir sobre o material a ser usado.

15. Como é ser professora de artes?
KH: Muito gratificante. É um momento muito especial para as crianças e para mim.. É grande a satisfação do professor quando o aluno tem interesse e nas atividades, e cresce aprendendo com aquilo que a gente gosta e acredita . É um momento de crescimento para todos nós.

16. Alguma parte ruim?
KH: Um pouco de desconhecimento, desinformação das pessoas em relação a atividade de artes visuais. Alguns casos até um pouco de discriminação.

17. Algum recado para os futuros artistas?
KH: Não desistam!

18. Recado para os professores?
KH: Dêem liberdade para seus alunos criarem.

Entrevista com o crítico de arte Eduardo Veras

Fala teu nome completo, por favor.

Eduardo Ferreira Veras.

Qual a tua formação?

Eu fiz graduação em comunicação na UFRGS e depois comecei a graduação em Artes Visuais lá no Instituto, mas não terminei. Eu fiz mais ou menos uns dois anos e meio, cheguei a fazer as introduções. Todas não. Mas fiz a gravura, a cerâmica, fiz todas as cadeiras de desenho que eu podia fazer, mas daí não terminei o curso. E depois eu fiz o mestrado em História e Teoria crítica com orientação de Elida Tessler e agora estou fazendo o doutorado com orientação da Mônica Zielinsky.

Como se deu o teu interesse pela arte e, por conseqüência, como tu chegou à crítica de arte?

É difícil determinar uma origem para um interesse que a gente tem. E mesmo quando a gente determina isso, sempre acredita que seja uma ficção. Uma história que a agente está inventando pra poder contar isso de alguma maneira. Se eu tivesse que determinar, eu diria que meu interesse veio pelo fato de eu desenhar. Desde sempre, desde criança... Como todo mundo... Algumas pessoas param de desenhar e outras continuam. Eu gostava de desenhar e as pessoas elogiavam meu desenho. Então, acho que meu interesse vem daí. Agora, o interesse por algo como a História da Arte, talvez venha do fato de que eu comecei a ler desde pequeno os livros do Monteiro Lobato. E os livros que mais me interessaram foram os livros do Monteiro Lobato que tratavam de mitologia Greco-Romana. Depois apareceu, quando eu era um pouco mais jovem, quando eu tinha uns doze anos, uma coleção de fascículos de banca sobre mitologia Greco-Romana e eles eram ilustrados com obras de arte. Eram ilustrados tanto por artistas da antiguidade como por artistas modernos, de Pequim que trabalhavam com ... E aquilo direcionou meu olhar. Agora, quanto à questão da crítica, acho que... Eu sempre fui meio resistente a me apresentar como um crítico. Na verdade eu sou um jornalista. Não existe uma formação dentro do jornalismo pra produção crítica. Essa é uma formação que as pessoas fazem pela sua própria conta e acho que existe uma diferença muito grande... Eu procurei, num momento da minha vida, uma formação acadêmica mais aprofundada. Fiz uma pós-graduação (e continuo fazendo, né), mas acho que a atividade que tu consegue desenvolver na academia, ela tem apenas alguns pontos de contato com o jornalismo. É muito diferente, não tem como... Eu diria que a questão essencial seja a questão do tempo. O jornalismo é algo feito com muita premência, com muita pressão e isso não combina com a experiência reflexiva, com o texto crítico. Então, há um esforço – um esforço mais ou menos recente – por parte dos jornais e por parte do jornal que eu trabalho, que é a Zero-Hora, de se ter textos mais críticos. Mas não basta só eu ter vontade e a possibilidade de publicar isso, mas a gente trabalha com uma tal pressão que não combina. Não se tem tempo pra pensar – que seria o ideal, né. Até por que você tem numerosas atividades que se acumulam. Eu acho que já aceito me chamaram de crítico. Eu acho que sou um jornalista, um repórter que cobre as artes plásticas já a bastante tempo. Eu estou completando 15 anos na Zero Hora, acho que esta semana (Risos). E desde o início eu acompanho a área de artes plásticas. Mas geralmente entrevistando as pessoas e fazendo matérias. Eventualmente fazendo crítica. Crítica é o que eu menos faço, embora goste de fazer. É algo... é um texto que precisa ser mais elaborado...

... Precisa de um pouco mais de pesquisa...

... não é nem mais pesquisa, é mais pra parar e pensar sobre. Por que pra outros tipos de textos, tu não vai precisar (...) É mais a urgência, não combina....

De que forma os textos criados por outros críticos acaba influenciando o teu trabalho?

Pois é... Daí eu teria que fazer uma investigação atenta do meu trabalho como jornalista e do meu trabalho como investigador acadêmico. Tem pontos de contato, mas não são a mesma coisa. Os textos criados por outras pessoas sempre vão ser referencias pra gente. Mesmo inconsciente. Tem uma frase do Humberto Ecco que diz “todo livro é sobre outro livro”. Mesmo que a gente não saiba. As referências existem. Claro, tudo que tu lê, tu tens os autores os quais tu te reporta mais seguidamente, aqueles que são mais caros. Mas depende também do objeto que tu ta te propondo a examinar. Conforme o objeto ele vai te exigir alguns autores ou outros. Mas a pergunta era do que forma os textos criados... Bom daí, eu acho que o texto acadêmico, essa influencia é mais direta e mais explícita. Mas no texto pro jornal, mesmo que seja um texto crítico, o espaço é reduzido. Ás vezes, quando tu ta trabalhando com um autor de referência, tu nem vai citar, por que não tem espaço pra isso. Texto jornalístico não tem nota de rodapé. Ás vezes não aparecem mas as referências tu estás constituindo delas, quer tu queira, quer não.

Como a resposta do público frente a uma crítica feita por você é recebida. Isso influencia de alguma forma o trabalho?

Na verdade eu quase nunca tenho e agora eu vou roubar uma frase do Sergio Faraco, que é um escritor, contista que mora aqui em porto alegre, ele escreve eventualmente crônica, crônica pra Zero Hora inclusive. Ele é muito meu amigo, e alguém perguntou pra ele sobre isso. Ele disse que a opinião dos outros não interessa minimamente. “Por que não é isso que vai me fazer escrever melhor. Se fosse tudo bem. Mas não vai fazer com que eu escreva melhor. Então eu acho que quando eu escrevo um texto não me preocupo com o que as pessoas vão achar. Mas eu me preocupo com o que as pessoas vão ler, na medida em que há um esforço de clareza, de concisão. Eu gosto de apresentar da melhor maneira possível alguma idéia que eu tive. De tentar iluminar da melhor maneira possível o que vou comunicar.

... É uma formação do público de certa forma, mas já faz uma diferença entre o público que lê e o que não lê.
Quais seriam os teóricos que tu mais admira?


É impossível fazer essa diferença. Claro que o texto que faço pro jornal ele vai se influenciar pela minha pesquisa acadêmica, pelos textos que eu leio na academia, mas talvez isso não vá estar tão explícito ali. Mas tem uma questão que pra mim é muito importante, que não por acaso minha orientadora agora é a Mônica Zielinsky. É uma questão que talvez eu já soubesse, mas que a Monica me explicitou, que é uma idéia muito cara. A idéia de que a gente não deve colocar a teoria antes do objeto que nos propomos a analisar. A gente tem que chegar para o objeto e perguntar. E partir do objeto e das perguntas que ele te propicia - perguntas que vão ser formuladas a partir da bagagem que tu tens - tu vai buscar a teoria que melhor vai responder aquilo. Claro, tu não pode te despir da teoria, mas ás vezes as questões que a obra que tu te propõe a examinar, elas serão melhor respondidas por algum autor que tu não está tão familiarizado. Tu tens que recorrer àquele. E também acho que nós não temos autores fixos. Vai depender da pesquisa em que tu está. Mas tem autores que me são mais caros. Que tu acaba ficando fiel a eles. No Brasil... claro que eu vou citar minhas orientadoras, Mônica Zielinsky, Elida Tessler, que foi minha orientadora no mestrado, tenho maior respeito... Mas um autor brasileiro que eu gosto muito e é referencia pro meu texto jornalístico também é o Jorge Coli, que é professor de História da Arte na UNICAMP...

... Nós lemos ...

... Esteve ontem em Porto alegre fazendo uma palestra, mas tinha pouquíssima gente. O Coli é um autor que eu respeito não só pelas idéias, mas também acho o que texto dele é de uma clareza que não se rende a sedução retórica. Que é sedutor, tanto pela forma, pelo conteúdo. A gente pode separar essas coisas. Ele é um autor que eu respeito muito. Atualmente acho que um autor que está me interessando no momento é o Dantas. Muito em função das pesquisas que eu ando fazendo, mas eu poderia citar muitos outros. Isso depende...

Cada crítico acaba escolhendo um determinado aspecto da arte ou das obras como forma de nortear a crítica. Isso acontece contigo? Qual seria esse aspecto?

Varia conforme o trabalho. Não tem um aspecto. Aqui eu vou procurar estudar o processo, aqui eu vou procurar estudar a artista informal... Acho que cada trabalho vai colocar mais em evidencia o próprio trabalho que vai surgir pra mim.

Quais são teus sonhos em relação a profissão?

São ambições tão particulares... (risos) Eu tenho pretensão de dar aula de preferência numa cidade com praia (risos)

Você acredita que o trabalho do crítico pode validar ou invalidar o trabalho de um artista em início de carreira?

Pode...

Será que a crítica tem esse poder?

Aaaaah ainda tem! Se a gente pensar que... Um artista não se faz sozinho, né. Um artista se faz dentro de um sistema. O sistema ele é composto pelas instituições, pelas galerias, pelos museus, pelos críticos, pelos curadores, então acho que todos esses agentes, eles vão projetar ou não um artista. Sim eu acho que sim. Ninguém está sozinho. A arte não acontece sozinha. A arte acontece dentro de um sistema e entre os vários agentes que atuam no sistema, um deles é crítico. Então acho que sim.

Que mais te seduz na profissão de crítico?

Eu mal consigo pensar na crítica como uma profissão. Vamos chamar de atividade. Mesmo pensar um artista como profissão é algo que me incomoda um pouco, mas isso seria um tema pra uma bela discussão... Eu acho que o que me seduz é o contato com a própria arte e achar que eu possa ter algo a dizer sobre aquilo. Acho que é bem simples.

Como é mercado de trabalho pra crítica de arte?

A gente pode pensar assim né... A atividade do crítico ocupa diferentes aspectos. Um crítico pode ser um curador. Uma curadoria pode ser uma forma de crítica. A catalogação da obra de um artista pode ser uma forma de crítica. Trabalhar dentro de um museu é uma forma de crítica. Se a gente pensar que a crítica é a reflexão sobre um trabalho. Então trabalhar como pesquisador dentro da universidade é uma forma de crítica. Daí tem muitas possibilidades. A gente pensa, escrever pra um jornal é também uma forma de crítica, mas daí... Eu não entendo nada de mercado. Mesmo o mercado de arte pra mim é uma coisa muito complicada. Eu acho que têm muitos atores e interesses atuando. Eu acho que a questão da crítica também...

Não teria como ser muito diferente...

Eu não sei pra que tem mercado! Eu acho o mercado uma questão muito complicada. Eu tenho uma visão meio idealista. Me incomoda a idéia de pensar o artista como profissional. Por que me parece que o profissional é aquele que produz. Parece que o artista se torna um produtor de objetos, um produtor de mercadorias. Quando a arte não é só isso. A arte, às vezes, é produzir algo que não seja vendável, que não retorna em dinheiro. Às vezes arte é isso. E as vezes a reflexão crítica que se faz sobre isso também não retorna em dinheiro. Parece que a profissão é algo que se faz para receber algo em troca. A grande arte foi produzida em troca de dinheiro. Não estou dizendo que arte não possa reverter em grana. A grande arte foi produzida sob encomenda e com pagamento. Em todos os tempos foi assim. Os artistas têm o direito de viver, assim como os jornalistas. Mas acho que nem toda a arte que se faz, resulta em mercado. Pelo contrário, tem toda uma arte que não produz objetos que não produz algo vendável. Daí parece que a gente exclui isso quando falamos de mercado. Mas tem uma arte contra o mercado que com o tempo acaba sendo...

... como exemplo, podemos citar a exposição que está acontecendo agora no Santander. A arte de rua...

... Pois é eu não estou bem resolvido pra esta exposição. Não que eu ache que arte de rua é de rua e tem que ficar na rua. Mas há uma contradição ali que eu não acho bem trabalhada e eu acho que ela deveria ser explorada pelos artistas. Isso poderia vira um motor pra eles. O que eu vejo lá na exposição, grande parte daquilo vira moldura. Parece que pra entrar na instituição tem que ser assim. Não sei eu não tenho uma resposta pra isso... Acho meio esquisito.

Quais seriam tuas sugestões pra quem quer entrar nessa atividade de crítico?

Não tenho uma resposta original. Mas vou citar o Jorge Coli. Não Jorge Coli de ontem, mas o Jorge Coli que eu vi há alguns anos numa palestra na Usina do Gasômetro. Teve um momento que houve um debate e uma professora fez um pergunta: - o senhor num artigo recente, na folha de são Paulo, fez uma crítica muito dura à História Social da Literatura e da Arte do Arnold Hauser - que tinha acabado de ser relançado no Brasil, isso lá em 1996, 1997 -, que livros então o senhor sugere que a gente trabalhe com os alunos? Ele respondeu assim: - livros com figuras. Por que pra se aproximar da arte. O que a gente tem que fazer é olhar, olhar e olhar. Depois que tu olhou muito, aí tu pode ler. Pensando bem, até o Hauser é bom. Porque a bronca dele com o Hauser é que, como autor marxista, ele consegue explicar tudo e muito bem. Claro que pela visão social, marxista, é fascinante. A bronca do Coli é a de que algo que explica tão bem a arte... onde fica a dimensão do mistério do inexplicável que é próprio da arte?

... É nem sempre tu consegues reduzir o visual em palavras...

É. Então eu não faria outra sugestão que não essa: olhar. Depois ler. Por isso é bom a gente fazer uma pós-graduação. Claro que tu não precisa de uma faculdade pra ser artista, e tu não precisas disso pra ser crítico, também. Pra escrever num jornal sim, tem uma lei que diz isso. Mas pra ser artista não. Nem pra crítico. Tem críticos que não tem. Há críticos importantes no Brasil que não tem pós-graduação, nem mestrado, nem doutorado e que foram críticos influentes, importantes, decisivos. Mas me parece que é importante tu buscar uma formação. Eu, por exemplo, fui buscar uma formação pra sistematizar leituras. Tu ter alguém que te diga “isso tu tem que ler, isso tu não precisa. Lê esse que ele já atualizou as questões daquele”. Então tu ter pessoas que te abreviam caminhos. Alguém que te oriente... “As questões que te interessam são essas? Então tu não pode deixar de ler esse e esse” Então tu te aproximar de alguém que já percorreu caminhos e que possa abreviar os teus, é uma saída pra isso...

O que você considera fundamental para a construção de uma boa crítica?

Eu acho que acreditar na escrita, ter experiência, acreditar na experiência. Buscar os autores que são necessários pra ti aprofundares. E acho que na hora de escrever, a clareza. Não acho que tu devas facilitar as coisas. Não. Mas acho que perseguir a clareza é algo importante. E acho que a agente pode ter alguma pretensão uma ambição, de alguma maneira iluminar aquilo tu estás te referindo. Tentar achar algo relevante. Algo que possa fazer alguma diferença. Talvez não pra muita gente, mas pra uma pessoa. Acho que isso é uma motivação.


O que tu considerarias importante nesse trabalho?

Me parece que a gente tem que estar atento ao nível de comprometimento que a gente com as pessoas e com as instituições, que estão envolvidas em torno daquilo a gente está se propondo a comentar. Tem que perceber qual é o teu papel ali e estar consciente do nível de relacionamento que estás tendo como autor. Pra não cometer uma mancada. Cuidar o laço de comprometimento que possa tornar frágil a própria honestidade do teu texto. Tem que saber administrar isso de alguma maneira.

Tem que ser fiel ao que tu estás pensando e ...

Mesmo seguir fiel. O que é seguir fiel? Claro que tu tem as tuas idéias íntimas as quais tu é fiel. Mas é interessante também tu colocar em cheque as tuas idéias. Por que tu é fiel a isso? Será que não tem idéias mais interessantes a serem seguidas? A crítica, assim como arte, não são atividades isoladas do mundo. Se tu estas estabelecendo algum tipo de laço com alguma coisa, tu tens que procurar estar consciente disso. Que laços tu estás estabelecendo? Com quem? E se isso te interessa. Se isso não está te comprometendo com coisas que não te interessam.